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Flávia Monjardim

Mostrar os bastidores do meu trabalho é se expor demais?

Bastidor é o meio do caminho. Mostrar o meio dá medo, porque ainda não existe resultado bonito para justificar nada. Eu publiquei o meu meio, com número e tudo, antes de ter qualquer resultado na mão. O que voltou foi gente vivendo a mesma coisa em silêncio.

"Ela está se expondo demais." De onde vem esse medo?

O medo chega antes de qualquer crítica ao trabalho. A frase julga o gesto de aparecer, e não o que foi feito. É por isso que ela paralisa tanto.

Contra a crítica ao trabalho, a gente sabe se defender. Estuda, refaz, melhora. Contra o julgamento do gesto, ninguém treinou ninguém.

O que conta como bastidor, afinal?

Bastidor é tudo que acontece entre a decisão e o resultado. É a tentativa que falhou. É a versão feia. É o número longe da meta.

Isso existe no trabalho de todo mundo. A diferença é que a maior parte das pessoas guarda essa parte inteira e mostra só o dia da inauguração. Aí o meio do caminho vira uma coisa suspeita, quando ele é a maior parte do tempo.

Eu mostrei o quê, exatamente?

Um mês antes do fim da gestação, eu publiquei que tinha ganhado 17 quilos. Publiquei antes de perder um grama. Escrevi que me assustava toda vez que subia na balança. Escrevi, na mesma linha, que estava me achando bonita.

Antes disso eu já tinha contado que fugia do espelho. Espinhas, celulite, tudo fora do lugar. Contei também que a minha questão com o corpo é antiga. A primeira nutricionista foi aos 11 anos, e fui porque eu pedi.

E o julgamento, veio?

Veio. Ele vem sempre, e vem também para quem fica calado. O que eu não esperava foi o resto.

Eu atravessei uma gestação de risco longe de casa, entre Paris e Copenhagen. Gente que eu nunca tinha visto na vida apareceu para ajudar. Isso não teria chegado até mim através do meu silêncio.

Falar primeiro muda alguma coisa?

Muda a ordem. Quem fala primeiro daquilo que a constrange decide como aquilo vai ser contado. Quem espera recebe a versão dos outros.

Eu aprendi isso com um personagem de Game of Thrones, que ensinava a não esquecer quem você é, porque o mundo não vai esquecer. Escrevi na época que as nossas vulnerabilidades deviam virar a nossa maior força. Sigo achando o mesmo, agora com prova.

Mostrar tudo funciona melhor?

Não funciona, e eu tenho as duas evidências na mesma história. Contar tudo entrega a decisão sobre a sua vida para a régua dos outros. Guardar tudo deixa você sozinha com o que está acontecendo.

O que sobrou para mim foi um jeito do meio. Eu escolho um pedaço, escrevo esse pedaço inteiro e guardo o resto sem culpa. O pedaço escolhido carrega mais verdade do que o depoimento completo, porque ele foi pensado.

É por isso que a frequência sozinha diz pouco. O que cansa quem lê é a falta de escolha. Ela aparece em quem publica todo dia e em quem publica uma vez por mês.

Então mostrar bastidor é uma técnica?

É uma escolha, e ela se repete todo dia. Escolher o que aparece dá trabalho, exige critério e leva tempo. É a parte do ofício que ninguém elogia, porque ela não aparece.

Quando eu decido publicar o meio do caminho, eu decido também onde parar. As duas decisões são minhas. Nenhuma das duas é sobre coragem.

Toda vitrine é uma escolha, inclusive a vitrine vazia. A minha, naquele ano, tinha uma balança, um espelho e uma gestação longe de casa. Escolhi as três, uma de cada vez, e guardei o resto do ano.

Quem me procura quase sempre chega com mostrar os bastidores é se expor demais na boca. É por ela que a conversa começa.