Já falaram tudo. O que eu ainda tenho de novo pra dizer?
Provavelmente nada, e isso não atrapalha. Eu peguei uma palavra que já existia, que não inventei nem descobri, e escrevi sobre ela para gente que estava vivendo aquilo sem ter o nome. A palavra era velha. O encontro era novo. Foi o encontro que fez o texto funcionar.
Quem exige novidade de você?
Ninguém do outro lado. Quem chega até você chega com uma dúvida, e a dúvida dela é antiga.
A exigência de ineditismo nasce dentro da nossa cabeça e faz um serviço muito específico. Enquanto a ideia não for original, dá para adiar a publicação com a consciência limpa.
O que aconteceu quando eu usei uma palavra emprestada?
Perguntei, na primeira linha, se quem estava lendo já tinha ouvido falar daquilo. Depois expliquei comparando com uma transição que todo mundo já aceita. Depois disse que era natural sentir o que aquela pessoa estava sentindo.
Nada ali era invenção minha. O trabalho todo foi de tradução, e tradução é trabalho.
Então originalidade não existe?
Existe, e ela mora em outro andar. Ela está em quem conta, para quem, e em que momento da vida dessa pessoa a frase chega.
A mesma ideia dita por duas pessoas diferentes chega diferente. A sua experiência é a única parte que ninguém copia de você.
Como isso aparece na prática?
Você pega uma ideia conhecida e cola nela uma coisa que só aconteceu com você. Um dia. Um erro. Uma conta que não fechou.
Aí ela vira um caso. E caso é o que gruda na memória de quem leu.
E se eu simplesmente não for criativa?
Criatividade aqui é outra coisa. O trabalho que eu fiz naquele texto foi reparar numa palavra e traduzir. Reparar se aprende. Traduzir se aprende.
Dom é o nome que a gente dá para o processo alheio visto de fora, já pronto. De perto, é ofício.
E se eu ainda não souber por onde começar?
Bem-vinda ao clube. Eu escrevi em que reinvenção era um tema sobre o qual eu queria falar cada vez mais por ali, e que eu não sabia muito bem por onde começar.
Escrevi isso em público, sem ter a resposta na mão. Foi exatamente assim que eu comecei.
Publicar sem ter a tese pronta funciona?
Funciona melhor do que esperar a tese chegar. Ela costuma aparecer na terceira ou na quarta peça, quando você já consegue ver o que a sua própria escrita insiste em repetir.
Ninguém descobre o que tem para dizer olhando para o teto. Descobre escrevendo e reparando no que voltou.
Talvez o assunto que você acha batido seja o mesmo que alguém procura hoje com outras palavras. Qual é o seu, e há quanto tempo você adia por achar que já falaram tudo?
Quem me procura quase sempre chega com já falaram tudo na boca. É por ela que a conversa começa.