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Flávia Monjardim

"Eu não tenho histórias pra contar."

Você tem, e a prova está na conversa que você teve ontem no almoço. Eu escrevi um texto chamado Em defesa da fofoca justamente por isso. A gente conta histórias o dia inteiro, de graça, para quem está por perto. O que trava é a hora de contar para quem está longe.

"Fofoca" é palavra feia. Por que eu uso ela?

Porque ela descreve com precisão uma coisa que todo mundo faz e quase ninguém admite. Eu escrevi que ser fofoqueiro é uma vantagem competitiva, e escrevi falando sério.

A verdade é que a gente aprende com a história dos outros. Com os acertos deles e com os erros deles.

Como eu sei que você faz isso?

Você presta atenção nas mesmas coisas que todo mundo. A lista é sempre a mesma. Quem casou com quem. Quem teve filho. Quem se mudou.

Esse comportamento é normal, e é o mesmo mecanismo que faz um bom livro funcionar. Muda a escala. A natureza é a mesma.

Por que ninguém segue uma fábrica de geladeira?

Porque não tem gente ali dentro. Eu escrevi essa ideia em e ela continua de pé: ninguém segue a marca da geladeira, e muita gente quer a geladeira que apareceu na casa de alguém.

Pessoas se conectam com histórias de pessoas. Essa é a frase inteira, e ela explica quase tudo.

Onde estão as minhas, então?

Nas coisas que eu faço e não reparo. Eu passei uns três meses lendo tudo sobre Steve Jobs, incluindo a biografia de quase todo mundo que trabalhou com ele.

Na hora, aquilo era curiosidade. Hoje eu sei que era estudo. A diferença entre as duas coisas é o que eu fiz depois.

Por que a sua parece sem graça?

Porque você viveu ela. O que virou repetição para você é novidade para quem chega agora.

A gente costuma precisar de um olhar de fora para enxergar o que tem de interessante na própria história. Eu vejo isso acontecer toda semana, e a pessoa sempre se surpreende com o que ela mesma acabou de dizer.

Como eu escolho qual contar?

Pela que você já contou em voz alta e viu a cara de quem ouviu mudar. Esse teste é gratuito e você já rodou ele várias vezes esta semana.

Se a história prendeu alguém no almoço, ela prende alguém na tela. O que muda entre as duas é a montagem.

E se eu contar e ninguém ligar?

Vai acontecer, mais de uma vez. Eu fechei aquele texto de com um convite simples: testa aí e me fala.

Continua sendo o meu melhor conselho sobre isso. História é ofício de tentativa, e a que funciona ensina mais do que a teoria inteira.

As minhas histórias entram na mesma conta que as que eu escuto. A melhor história de qualquer pessoa já foi contada uma vez, em voz alta, numa mesa de almoço. Continua lá, do jeito que saiu, esperando alguém escrever.

Quem me procura quase sempre chega com eu não tenho histórias pra contar na boca. É por ela que a conversa começa.