"Eu não escolhi nada disso. Foi tudo acontecendo comigo."
A escolha costuma chegar atrasada. Ela aparece depois que a coisa já caiu em cima de você. Alguém precisa decidir o que fazer com aquilo, e esse alguém é você. A pandemia que derrubou o negócio que eu tinha montado chegou sem me consultar. O que eu fiz no dia seguinte foi decisão minha. É essa segunda parte que vira história.
Por que a minha vida parece uma sequência de acasos?
Porque você está olhando para os começos. O começo quase sempre vem de fora. A crise chega. A empresa fecha. O convite aparece sem aviso.
O que foi seu veio depois. Você fez alguma coisa com aquilo, do jeito que dava, no estado em que estava. Esse pedaço raramente entra no relato.
E o que foi escolha minha, afinal?
Larguei um caminho inteiro que já estava de pé para começar outro que eu ainda estava aprendendo. Abri mão de uma sociedade. Comecei do zero. Ninguém me apoiou.
Me perguntaram, na cara, se eu tinha perdido o juízo. A pergunta era honesta, porque de fora aquilo parecia um acidente de percurso. Por dentro era uma conta que eu já tinha feito.
E o que caiu em cima de mim, vale o quê?
Vale como cenário, e cenário é metade de qualquer história. Eu tinha montado uma coisa com cuidado e vi aquilo desmoronar, apesar de todo o esforço.
O desmoronamento veio de fora. A decisão do que fazer com o que sobrou foi minha, e é dela que sai o meu trabalho de hoje.
Como eu escolho, quando dá pra escolher?
Por uma régua que eu peguei emprestada de um autor e nunca mais larguei. Se a resposta vier morna, ela é um não.
Talvez é não. Sim sem convicção é não. Quando você sabe o que quer, fica evidente o que você não quer, e até a decisão dolorida fica simples.
Sumir da internet também conta como escolha?
Conta, e é a que mais me custou explicar. Teve um período em que eu simplesmente parei de aparecer, e de fora aquilo parecia desistência.
Por dentro era uma decisão que eu tinha tomado sobre o tamanho que eu queria ocupar. Foi escolha inteira, e ela teve preço. Nenhum perfil parado mostra isso para quem olha de longe.
E quando a mudança foi grande demais pra ter sido minha?
Essa é a mais difícil de todas, e eu escrevi sobre ela em . Até um certo ponto da vida eu era só eu. Fazia o que eu quisesse, quando bem entendesse, e era isso que me definia.
Depois eu escrevi, sobre o que tinha acontecido comigo, uma frase curta: mudei tudo de mim. O verbo é meu. A gestação chegou sem pedir licença, e cada renúncia depois dela passou pela minha mão.
Por onde eu começo a enxergar isso na minha?
Por uma decisão só, a menor que você achar. Uma linha com o que aconteceu com você. Outra embaixo com o que você fez em seguida.
A segunda linha é a sua história. Ela é curta, quase sempre feia, e é a única parte que ninguém poderia ter escrito no seu lugar.
A casa onde eu trabalho se chama Autoria. Ela atende exatamente quem ainda acha que não escolheu nada.
Eu vou continuar contando isso por aqui, decisão por decisão. A minha lista começa num dia de março de , com o celular na mão e uma vontade enorme de desistir. Gravei muitas vezes, publiquei assim mesmo. Aquele dia foi meu.
Quem me procura quase sempre chega com eu não escolhi nada disso na boca. É por ela que a conversa começa.